Prof. Hermes Rodrigues Nery
Estivemos no começo desse ano, no Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, num encontro de especialistas em bioética e lideranças pró-vida nacionais e internacionais, para afirmar “um solene compromisso com a cultura da vida” – conforme desejo do Pe. Ethewaldo Naufal L. Júnior, Presidente-Executivo do Congresso – atendendo assim ao apelo da Igreja (expresso na Evangelium Vitae) para que a vida seja respeitada, salvaguardada e cultivada (como insiste em dizer o nosso Bispo, Dom Carmo João Rhoden – cultivada e vivida com intensidade, a partir dos critérios do Evangelho), em suas possibilidades edificantes.
Estamos aqui – e fomos todos convocados (Igreja quer dizer convocação) para afirmar ao Brasil e ao mundo o “sim” à vida, um “sim” que traz exigências, que requer de nós, o melhor que somos e o melhor que temos, um “sim” que nos leva a um posicionamento e a tomadas de decisão (não dá para servir a dois senhores). O “sim” que nos leva a escolher entre dois caminhos: o que conduz à morte ou o que nos leva à vida, como bem destaca, em inúmeras passagens, o Documento de Aparecida.
“A Igreja luta pelo ser humano” , daí que o “sim” à vida nos faz elevarmos o nosso olhar para a dimensão última da nossa existência, do sentido de estarmos aqui (do porquê e do para quê), para onde estamos destinados a viver e em que medida o nosso ser e o nosso fazer definem a vida escolhida por nós para vivermos na eternidade, pois começamos aqui a edificar o que seremos na eternidade.
Dessa forma, a imagem da Anunciação revela muito do sentido da nossa esperança, enquanto cristãos (Spe Salvi) e nos mostra claramente a atitude que devemos tomar diante da decisão fundamental da nossa vida: aderir ou não ao Plano de Deus – que governa a história.
“Maria, ainda que prevista e profetizada ao longo dos séculos desde o paraíso terrestre, se torna realidade operante e eficiente a partir do momento em que dá o seu consentimento expresso para o evento salvífico da Anunciação”.
O anjo Gabriel anunciou a Maria que ela se tornaria – por ação do Espírito Santo – a mãe do Salvador. Mas logo depois de inquirir: “Como isso, se não conheço homem algum?” (Lc 1, 34), Maria aceitou, em seu coração, a ação amorosa do Senhor.
“Maria foi a pessoa por meio da qual o plano de Deus para a salvação do mundo foi colocado em ação”.
O Espírito Santo atua e fecunda os corações virgens, que não foram maculados pelas seduções, enganos e maldades do mundo – e muito menos pelo afã de poder, de dominação temporal, de auto-suficiência, enfim, ao coração que ama ao servir na inteira gratuidade, porque crê em Deus providentíssimo.
“Uma Virgem (parthenos) conceberá e dará à luz um filho, e seu nome será Emmanuel – Deus conosco” (Mt 1, 23; Is 7, 14).
Maria foi a primeira quem acreditou no poder salvífico de Deus. Quem anteviu em seu coração o Reino das bem-aventuranças, quem amou e viveu tão profundamente as virtudes excelsas do Reino de Deus, que Jesus anunciou como “boa notícia”, em seu ministério público. Maria foi a primeira a aderir plenamente – e com grande alegria – ao que Deus ainda hoje quer para toda a humanidade: vida plena, bem-aventurada, a vida verdadeira.
As atitudes de Maria são para nós, hoje, cristãos do início deste século e novo milênio, as atitudes de quem tem consciência do que nos espera, pois ela deu testemunho do que defender e a quem defender.
Atitude do silêncio e não da omissão, nem da indiferença, mas da escuta, do respeito e da compaixão pelo outro, especialmente dos fragilizados, vítimas dos sistemas opressores do mundo. Daí que o seu Magnificat é certamente o primeiro grande Manifesto ou Declaração em defesa da vida, pois “derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes, saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos (Lc 1, 52-53).
Atitude da oração e do trabalho, de exortação e do bom conselho, de solidariedade (como na visita a sua prima Isabel), de encontro aos sofredores e aflitos (como na atitude de solidariedade nas bodas de Caná), de comunhão eclesial, como na feliz manhã de Pentecostes.
A vida de Jesus está tão intimamente ligada à de Maria, num elo de profunda comunhão espiritual. De fato, os Evangelhos nos mostram que não se chega a Jesus sem Maria, ou ainda que é possível se aproximar de Jesus e dele obter as melhores graças, por intermédio de Maria, pois ela é, de todos os santos, a santíssima intercessora por excelência. Foi assim em Caná: “Fazei o que Ele disser” (Lc 2, 5), e o primeiro milagre aconteceu.
Maria – como a Igreja – é a esposa perfeita, “perita em humanidade”, pois “os sentimentos humanos, diversos e contraditórios, vibram na contemplação do grande evento que conjuga a pobreza de Maria com a riqueza divina”.4 Como mulher e mãe, Maria é o paradigma da perfeição, porque nela contém todas as virtudes, em excelência. De uma grande riqueza interior, foi a que melhor compreendeu o mistério de Deus e sua força salvífica, aceitando-o plenamente e colaborando para a realização do Seu reino, a partir dos eventos históricos ocorridos nesse mundo, como sinal da presença de Deus a garantir a bem-aventurança na vida ulterior e perdurável.
Temos também a mulher de coragem, que assume a sua missão de Mãe do Salvador, correndo riscos e privações, para salvaguardar a vida da criança que lhe foi confiada. Desde o início, Maria convive com o perigo daqueles que querem tirar a vida do menino-Rei. A fuga para o Egito, no contexto da matança dos inocentes, é certamente, a imagem mais dolorosa e atualíssima daquilo que o papa João Paulo II denunciou na sua encíclica Evangelium Vitae: “a guerra dos poderosos contra os fracos, a conjura contra a vida”.5
Nesse sentido está a atualidade de Maria, em meio aos grandes desafios do nosso tempo, quando a família e a própria vida humana está duramente atacada e ameaçada por forças tão poderosas. “É muitíssimo grave e preocupante o fenômeno da eliminação de tantas vidas humanas nascentes ou encaminhadas para o seu ocaso, não o é menos o fato de à própria consciência, ofuscada por tão vastos condicionalismos, lhe custar cada vez mais a perceber a distinção entre o bem e o mal, precisamente naquilo que toca o fundamental valor da vida humana”.6
Em meio às fragilidades em que vivemos, Maria emerge como sinal da força de Deus – que caminha conosco – e reafirma a cada instante o bem da vida para todos. Reafirma também a importância da liberdade que nos permite fazer escolhas, muitas vezes cruciais, a tomar decisões que vão definir a nossa condição na eternidade. Maria também teve o seu momento decisivo, quando foi chamada pelo Anjo Gabriel a dar sua anuência à vontade de Deus, e humilíssima, respondeu: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.” (Lc 1, 38). Assim hoje somos chamados a nos posicionarmos diante dos grandes desafios que temos pela frente, especialmente o de defender a família “santuário da vida”, e a dignidade da pessoa humana.
Há hoje em curso, em todo o mundo, uma mentalidade anti-cristã e anti-humana, crescente nos meios de comunicação, nas universidades, nos ambientes da educação e da pesquisa científica, nas empresas e instituições, enfim, intensificando na opinião pública, a “conjura contra a vida”, sem que muitos se percebam disso; um combate entre a “cultura da morte” e a “cultura da vida”, a exigir de nós, cristãos, um posicionamento que tenha como critério o espírito das bem-aventuranças. Nesse combate, Maria nos ilumina com seu santo exemplo e seu grande poder de intercessão, a discernir e a decidir pela vida, pelo bem da pessoa humana. Nesse sentido, a sua espiritualidade nos ajuda e nos encoraja a enfrentar o ceticismo, o relativismo, o hedonismo, o individualismo e tudo aquilo que se contrapõe à boa iniciativa, à responsabilidade e à solidariedade, que Maria tão bem viveu; contraponto esse que faz da Igreja, “sinal de contradição” a lutar firme pelo ser humano, e a proclamar a sua dignidade como um grande valor a ser sempre defendido. Que Maria, rainha do céu, nos proteja e nos dê a força que precisamos para prosseguirmos em nossa missão de defensores da vida e da família, suporte da pessoa humana, para que alcancemos um dia, na glória de Deus, a vida em plenitude.
Prof. Hermes Rodrigues Nery é Coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté. E-mail: hrneryprovida@uol.com.br